A
organização dos investimentos baseada
no conhecimento
“Custos e salários baixos não são boas vantagens
competitivas no mercado global. Se o Brasil quiser realmente se desenvolver,
a indústria precisa basear sua competitividade no conhecimento
e na inovação”, disse o cientista inglês Simon
Campbell na 30ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de
Química (SBQ).
O ex-presidente da Royal Society of Chemestry, da Grã-Bretanha,
conhecido por ser o autor da proposta de pesquisa que levou à
descoberta do Viagra, usou o exemplo de seu país para defender
a importância, para o futuro de nações como o Brasil,
dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e da interação
entre universidade e indústria.
Segundo Campbell, que foi vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento
(P&D) da Pfizer, a indústria química britânica
passou por uma importante transformação nos últimos
20 anos: houve um grande aumento no número de pequenas empresas
químicas de base científica que tentam transformar as
descobertas derivadas da pesquisa acadêmica em oportunidades comerciais.
“Para criar um contexto em que essas empresas apareçam,
a questão-chave é reconhecer que o investimento em pesquisa
e desenvolvimento traz grandes benefícios econômicos. Quando
começamos o trabalho na Pfizer de Sandwich [em Kent, Inglaterra],
éramos cerca de 200 pesquisadores. Hoje, depois da descoberta
de vários novos medicamentos por meio de pesquisa, a equipe tem
mais de 3,5 mil cientistas”, disse Campbell à Agência
FAPESP.
Segundo ele, além de compreender a importância do investimento
em P&D, é fundamental construir uma economia baseada no conhecimento.
“Sempre haverá um país que venderá mais barato.
Por isso, apenas custos não são boa vantagem competitiva.
Temos que competir com base em nossas inovações e idéias”,
disse. Reconhecer o valor da pesquisa acadêmica é outro
ponto importante. “Muitas idéias inicialmente parecem ser
puramente acadêmicas, mas podem ser transformadas em produtos
comerciais. Além disso, é preciso vontade política
do governo, como ocorre em São Paulo por meio da FAPESP, de fazer
com que agências de fomento estimulem esse modelo de crescimento
econômico”, destacou.
Na Grã-Bretanha, de acordo com Campbell, a indústria química
é um dos principais setores manufatureiros, que movimenta anualmente
100 bilhões de libras (cerca de R$ 387 bilhões), com faturamento
de 6 bilhões de libras e balança comercial positiva de
10 bilhões de libras. Há mais de 400 empresas no setor,
a maioria com base em pesquisa. “O setor responde por 25% da P&D
industrial”, afirmou.
O vigor do setor ajudou a estimular a explosão de empresas surgidas
a partir de universidades. “Houve uma tomada de consciência
de que a maior parte da pesquisa básica feita nos laboratórios
universitários poderia ser transformada em produtos. Se você
olhasse há 50 anos, não veria ninguém fazendo isso.
Hoje, os pesquisadores acadêmicos estão se perguntando:
depois que fizer meu trabalho acadêmico, como vou comercializá-lo?”,
disse.
Para Campbell, um dos principais entraves para o Brasil chegar a uma
situação semelhante é o ambiente burocrático
que dificulta a tomada de decisões. “Não posso fazer
uma análise detalhada, porque não tenho dados precisos
sobre o país. Mas, no contato com a comunidade acadêmica
daqui, o que tenho ouvido é que a universidade tem dificuldades
com uma imensa barreira burocrática cuja transposição
é muito difícil”, disse.