O retrato do rentista quando jovem
Emerson Pires de Souza

 

Nada mais do que diante de uma realidade. Os casos de endividamento junto aos órgãos competentes pelo financiamento do ensino superior são crescentes e recebem magnitude muitas vezes surpreendentes, p.ex., um financiamento de R$ 25 mil se transforma em R$ 39 mil. Não, isso não é o resultado da compra de um superflúo ou de uma viagem ao exterior para o aprimoramento da empregabilidade de um cidadão, mas sim os custos da graduação de um acadêmico. Tenho notícia de que um acadêmico que cursou fisioterapia na Unifran em Franca, no interior de São Paulo, e se formou em 2004, tem dívidas com a Caixa Econômica Federal até 2011. "Às vezes, me arrependo de ter feito a faculdade", disse o jovem devedor. Como as parcelas do financiamento ficaram pesadas demais para o orçamento, ele ingressou na Justiça e hoje quita valores menores. Enfrentar a dívida é a mesma dificuldade de Thadeu Melo, 28. Formado em jornalismo em 2000, continua devendo R$ 19 mil, divididos entre o Fies e uma bolsa restituível da faculdade. "É ruim ter de pagar até hoje, mas valeu a pena. Precisa haver bom senso do credor para negociar com a situação real", diz.
Diante das crescentes dificuldades para o financiamento do ensino de graduação é prudente conhecer a orientação trazida pelo movimento “ Ação Jovem do Mercado Financeiro e de Capitais é um grupo sem fins lucrativos, formado por jovens ligados (ou ao menos interessados) em mercado financeiro e áreas afins. Sua proposta é aproximar a nova geração do mercado de ações, desmistificando o mundo das bolsas para esse público. Não por acaso, o grupo tem apoio da Bovespa e da BM&F. E tem ficado conhecido por iniciativas como cursos sobre mercado, eventos (o mais badalado foi um jantar com FHC), palestras, contatos com empresas juniores e debates. Sua ação mais inovadora, porém, talvez tenha sido encomendar uma ampla pesquisa com mil jovens de cinco capitais brasileiras sobre diversos temas, como política, carreira e, como não poderia deixar de ser, mercado financeiro. Batiza­do "10 Tendências de Uma Geração Comprometida Com o Sucesso", o es­tudo foi realizado pelo Instituto Data Popular em Porto Alegre , São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador. Ele revela uma juventude desiludida com homens públicos, focada no sucesso profissional e otimista em relação ao seu futuro - mas não sobre as perspectivas do País.
O universo do trabalho, restrito a universitários nos anos finais de seus cursos, já empregados e com salários de pelo menos R$ 1,5 mil, caracteriza um grupo de elite. Saber quem são e o que pensam esses jovens (com nível de renda bem superior à média brasileira) ajuda a traçar o perfil da futura clientela dos bancos e das corretoras - os rentistas de amanhã.
Surpreendentemente, os resultados da pesquisa revelam o total desconhecimento de finanças pessoais por parte dos entrevistados. Muitos se endividam; pouquíssimos fazem contas antes de comprar um terno novo ou um car­ro do ano em busca do status de jovem bem-sucedido. Outros se prendem muito cedo a um imóvel, com longo financiamento, perdendo a mobilidade natural da juventude. Quase todos usam o gerente do banco como consultor financeiro. E, contrariando a lógica de que o jovem é o investi­dor preferencial da renda variável por ter longo tempo para recuperar eventuais prejuízos, a maioria investe em caderneta de poupança. "Eles não têm a mínima idéia do que é a Bovespa ou a BM&F. Acham que são estatais", diz Carlos Souza Barros, presidente da Ação Jovem. Segundo ele, porém, esse jovem não rejeita o mercado financeiro. Só não sabe qual é a porta de entrada. "Por falta de informação, eles tendem a superestimar o risco e subestimar o ganho do investimento em ações", observa Gabriel Cintra, vice-presidente do grupo.
Os jovens ouvidos pelo DataPopular prevêem que estarão ganhando quatro ou cinco vezes mais do que ganham hoje dentro de cinco anos - mas acham que o Brasil não acompanhará esse ritmo. A maioria dos entrevistados conta com a família como uma espécie de incubado­ra de talentos. Tipicamente, o pai aceita bancar as despesas do filho até mais tarde para permitir a ele estudar mais, fazer um MBA e entrar mais velho e mais bem-preparado no mercado de trabalho. "O sonho dessa geração não é dar a volta ao mundo, mas fazer sucesso profissional", resume Souza Barros, herdeiro e atual diretor-superintendente da corretora que leva seu nome.

 

 
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