Ética profissional: capital de credibilidade política
Emerson Pires de Souza (1)
No primeiro momento, opto por fazer algumas considerações, tomando como ponto de partida as macromudanças pelas quais temos passado, para posteriormente tecer algumas considerações sobre as referências da ética profissional no campo da administração.
Se há uma expressão que possa caracterizar o atual estágio pelo qual a sociedade passa, esta é a mudança. Assistimos às mudanças sob todos os aspectos possíveis e imagináveis: de caráter social, político e econômico. Certamente o que mais tem chocado é o fato de que tais mudanças não são simplesmente alterações dos procedimentos tradicionais, mas se caraterizam pela profundidade e radicalidade com que se processam.
Uma área de grande relevância e sinalização é a tecnologia. Esta observação leva-nos à formulação de perguntas críticas, que exigirão respostas de curto prazo: quais as reformulações que se fazem necessárias no nosso sistema educacional? Como deverá ser estruturada a educação para o lazer? Como trabalhar a tecnologia que tanto influenciará o progresso das comunicações eletrônicas, permitindo o estímulo das formas clássicas de distração e cultura, em vez de competirem com elas?
No Brasil há um considerável engajamento no processo de industrialização; preocupações de noções pós-industrialização, como as anteriormente citadas, já passam a fazer parte do nosso contexto. Alguns indicadores, como a institucionalização nas universidades de cursos voltados para o lazer, aí estão presentes. O motivo deste fato parece-nos evidente: em primeiro lugar, o estabelecimento de uma autêntica comunidade de informações que nos permite saber, em “tempo real”, os mais variados acontecimentos e comportamentos em nível mundial: em segundo, o “efeito-demonstração”, que nos faz incorporar hábitos e costumes às vezes bastante destoantes de nosso background cultural . A tendência, no que se refere à utilização do tempo real, é que haja um interstício curtíssimo entre descoberta e utilização. A conseqüência primordial, em termos organizacionais, é que somente aquelas instituições que forem capazes de inovar, de se manterem à frente dos acontecimentos, serão capazes de permanecer no mercado. Do ponto de vista social, há necessidade cada vez mais urgente de nos adequarmos ao novo ritmo com que os resultados das inovações se processam.
A educação formal, especializada, tem substituído a experiência, que tradicionalmente era obtida através da vivência, pelo exercício contínuo de determinada atividade laboral. Na atualidade, cada vez mais fica a produtividade do indivíduo dependente de sua capacidade de incorporar novas teorias e conceitos aprendidos na escola/universidade, e de transferi-los para atividade diária, dado que anos de experiência podem apenas significar, na realidade, uma única experiência várias vezes repetida, e por falhas em seus primórdios, ou a repetição dos mesmos erros ao longo do tempo.
A consciência de que a educação não é preparo para a vida, mas é a própria vida, em si, e também a consciência da necessidade de o indivíduo não só se manter atualizado, mas também de gerar novos conhecimentos, têm levado a nossa sociedade a servir-se do que chamamos de educação permanente/continuada. Descolada dessa realidade a sociedade volta-se à rápida obsolescência profissional.
A aceleração das mudanças tem conseqüências fortes para o indivíduo, isoladamente considerado. Em primeiro lugar, no que concerne ao seu conhecimento, que tende a se tornar obsoleto em curtíssimo espaço de tempo. Bennis afirma que estamos iniciando uma era em que o conhecimento do homem e a conseqüente abordagem e pontos de vista podem se tornar obsoletos mesmo antes de ele ter iniciado a carreira para a qual foi treinado. O valor daquilo que o indivíduo aprende está sempre fugindo, como o valor do dinheiro numa inflação galopante. Nós estamos vivendo numa era que pode ser caracterizada como a de uma inflação galopante de conhecimento e habilidades.
Um outro aspecto a ser considerado é o número de papéis exigidos do indivíduo, em virtude de ser incrementado sistemática e significativamente e, em conseqüência, o número de opções e decisões. O indivíduo sofre o impacto psicológico, quer queiramos ou não, em virtude do novo ritmo. Hoje podemos afirmar que o problema mais sério que o homem terá de enfrentar nos anos vindouros é a maior incerteza quanto à velocidade das mudanças. Trata-se de quanta mudança o ser humano pode aceitar, absorver ou assimilar, e em qual velocidade ele pode incorporá-la. Diante disso, fica uma interrogação: pode o indivíduo acompanhar o ritmo sempre crescente de mudanças tecnológicas, ou há um ponto no qual o organismo humano não suportará?
Erich Fromm nos fala do “Homem Novo”, em seu livro Ter e Ser ele tece comentários sobre os dois relatórios referendados pelo chamando Clube de Roma; o primeiro desses relatórios foi coordenado por D.H. Meadows e o segundo por M. D. Pestel, sendo que ambos tratam das tendências tecnológicas, econômicas e demográficas em nível mundial. As conclusões dos relatórios são no sentido de que somente através de reformas muito substantivas, tanto de caráter econômico quanto tecnológico e políticos, em escala global, poder-se-á evitar a “catástrofe mundial maior e definitiva”.
Os dois relatórios afirmam que tais reformas serão possíveis se ocorrerem mudanças fundamentais nos valores e atitudes do homem, tais como uma nova ética e uma nova atitude para com a natureza. O que os relatórios salientam é que só será possível uma nova sociedade se, no processo de desenvolvimento desta, um Novo Homem também se desenvolver. Isto nos deixa diante da evidência: ser ético não é apenas ser bom, mas necessário e vital, por se tratar de uma questão de sobrevivência.
“A necessidade de uma mudança humana profunda surge não apenas como um imperativo ético ou religioso, não apenas como uma exigência psicológica decorrente da natureza patogênica do nosso caráter social de hoje, mas também como uma condição para a simples sobrevivência da espécie humana. Viver corretamente não é mais apenas o cumprimento de ordem ética ou religiosa. Pela primeira vez na história, a sobrevivência física da espécie humana depende de uma radical mudança do coração humano. Uma transformação do coração humano, todavia, só é possível na medida que ocorram drásticas transformações econômicas e sociais, que proporcionem ao coração humano a oportunidade para a mudança, a coragem e a visão para consegui-la”( Fromm, 1977).
É sabido que os filósofos destacam que nenhuma consideração ética tem sentido senão dentro de um sistema coerente, que inclua: a) pressupostos relativos à natureza do mundo ou do contexto dentro do qual se esteja atuando; b) noções sobre a natureza do Homem, sua capacidade e suas limitações; e c) alguma noção de propósito, que conceda significado às ações próprias que realize, bem como ao esforço cooperativo feito com as demais pessoas. À luz dessas convicções e para fins de análise das suas práticas éticas tradicionais, a organização em funcionamento pode ser considerada como um sistema coerente. Há referências de que Barnard foi um dos primeiros autores a destacar esses pontos, na sua ênfase sobre a qualidade moral da decisão voluntária de fazer parte do risco cooperativo que conhecemos como “organização”, onde a ética pode ser entendida como capital de credibilidade política.
No homem surge um fenômeno diferente. Aparece o conhecimento dos fins, a reflexão, a liberdade. É de forma consciente e fundamentalmente livre que o homem desenvolve sua atividade. “Somos à força livres”, diz Ortega y Gasset. Por isso, as leis que nos dizem respeito – leis humanas, éticas ou morais – apresentam características próprias. Dizem o que “deve ser” e não o que é. São imperativas ou normativas e não simplesmente enunciativas. Neste momento há de ser considerada a questão: como definir a lei humana ou ética? Para respondê-la, consideremos a palavra “ética”, derivada do grego “ethos”, significando costume. Assim, leis éticas são regras que dirigem o comportamento humano, estabelecendo direitos e deveres de ordem moral. São regras éticas: o respeito à dignidade humana, o dever de não mentir, a exigência da solidariedade, a prática da justiça, o respeito às leis da natureza e preceitos semelhantes.
À lei humana ou ética aplica-se a famosa definição de Cícero, que reproduz a sabedoria clássica e pode ser assim sintetizada: uma lei verdadeira, norma racional, conforme a natureza, inscrita em todos os corações, tem Deus por autor; não pode, por isso, ser revogada nem pelo Senado, nem pelo povo; e o homem não pode violar sem negar a si mesmo e à sua natureza e receber o maior castigo”. A ética nos fornece as regras fundamentais da conduta humana, delimitando o exercício da atividade livre. Fixa “os usos e abusos da liberdade”, na feliz expressão de W. Cox, que deu a seu tratado de Ética o título: “Liberty: its use and abuse”.
Essa concepção de uma base ética objetiva no comportamento das pessoas e nas múltiplas modalidades da vida social foi esquecida ou contestada por fortes correntes do pensamento moderno. Concepções de inspiração positivista, relativista ou cética e políticas voltadas para o “homo economicus” passaram a desconsiderar a importância e a validade das normas de ordem ética no campo da ciência e do comportamento dos homens, da sociedade, da economia e do Estado. Montoro nos assegura: “... é quase universal a retomada dos estudos e exigências da ética na vida pública e na vida privada, na administração e nos negócios, nas empresas e na escola, no esporte, na política, na justiça, na comunicação”. José Arthur Gianotti pergunta: “Por que a ética voltou a ser um dos temas mais trabalhados do pensamento filosófico contemporâneo?” A resposta fica ao encargo de cada um de nós, após a exigida reflexão. Queiramos ou não, nós fazemos parte do mundo e da sociedade. E não somos “coisas”, somos “pessoas”. Assim, deixemos a coisificação de lado e trabalhemos sobre o propósito de construir uma sociedade justa, como perspectiva da consciência comum da humanidade.
Laura Nash, professora da Universidade de Harvard afirma que: “estamos em um novo estágio da ´evolução` dos conceitos éticos. Essa afirmação está fundada na observação de que as mudanças nos negócios, o surgimento de novas tecnologias e a rapidez como as informações circulam estão fazendo com que os empresários se preocupem cada vez mais com as questões éticas. Isso ratificado com o começo da criação dos próprios códigos de ética, citando-se que 95% das empresas americanas já possuem algo nesse sentido, visto que a tecnologia, tanto quanto o conhecimento são o mais novo alvo da ética empresarial”.
O processo pedagógico para a educação do futuro tem um compromisso explícito nos aspectos da internalização de valores, de responsabilidade social, de justiça e ética profissional, dada a exigência da formação humanística para compreender o meio social, político e econômico num mundo diversificado e interdependente. A educação do futuro, sem qualquer dúvida, deverá ensinar a ética da compreensão de estarmos prontos para o inesperado, isto porque a educação é ao mesmo tempo transmissão do antigo e abertura da mente para receber o novo, tendo como cerne o desenvolvimento de uma postura para uma nova missão, qual seja a busca de novos conhecimentos sem esquecer os antigos saberes disseminados na sociedade, que exige ´ e muito ´ da ética profissional, principalmente nos aspectos da autenticidade da informação acadêmica.
_____________________________________________________________________________ (1)Administrador e presidente do CRA/AM/RR